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Nelson Lopes e Marcio Sartori são Designers e diretores do estúdio ÍCON DESIGN. Na entrevista que o Olhar Geek realizou com esses dois profissionais, você vai ficar sabendo tudo o que um aspirante a carreira de designer automotivo precisa fazer para ser bem sucedido. A entrevista foi dividida em 3 partes.

Entrevista ÍCON DESIGN - PARTE 1

Entrevista ÍCON DESIGN - PARTE 2

PARTE 3

Olhar Geek: Em eventos automotivos nós verificamos a exposição de carros-conceito. Esse carro-conceito não serve só para promover a marca. Ele também serve para ser utilizado como inspiração?

Nelson Lopes: O carro-conceito tem a mesma função que uma roupa de metal em um desfile de moda, por exemplo. Aquelas roupas ninguém vai usar e não tem nem como a pessoa vestir aquilo, mas serve para expressar o que a marca pensa, o que o estilista pensa para as próximas gerações e ver como o público reage. Uma montadora funciona da mesma forma. Ela faz um carro desses pensando em comunicar os valores dela dizendo: “Vamos esquecer que existem problemas. Se pudéssemos fazer o melhor do melhor para vocês, seria assim! Nós imaginamos que vocês vão ter essas necessidades no futuro, vão precisar disso, vão ter essa cara, materiais, cores e formas”. Esse carro serve para testar a opinião pública.

Márcio Sartori: Inclusive, nós trabalhamos no desenvolvimento do Nissan Extreme. Foi boa parte desenvolvido aqui. O design não é nosso, foi desenvolvido pelos designers da Nissan. Eles vieram para cá e nós provemos toda a estrutura para o desenvolvimento do conceito. O modelo em clay em escala e todo o desenvolvimento matemático foi feito aqui. O modelo físico em si foi feito em outro fornecedor indicado por nós, porque não temos oficina de modelação.

Olhar Geek: Vocês apresentam esses carros-conceito para usar como exemplo nas aulas?

Márcio Sartori: Atualmente sim. Pode ser um exemplo bom ou ruim, apontando: “Olha por que isso aqui é ruim, por que não é legal”. Nós conduzimos os alunos a visualizar essas coisas e começar a desenvolver essa cultura que nós designers temos.

Olhar Geek: Vamos falar um pouco do mercado para o designer automotivo. O que o cara que realmente deseja seguir com essa carreira precisa fazer para entrar no mercado? Vai procurar contatos?

Márcio Sartori: Vou te dizer alguns números que tenho estimado em minha cabeça para você ter uma idéia. Os primeiros estúdios de design automotivo que surgiram no Brasil foram nos anos 60. O departamento de design da Fiat nos anos 90 era bem menor do que é hoje. Hoje o setor deles é muito maior e isso aconteceu do final dos anos 90 pra cá. Aumentou muito, mas ainda assim é um setor muito restrito e competitivo. Se você imaginar que em uma montadora existam 25 designers, quantos engenheiros eles tem? Centenas. Profissionalmente ainda é um setor muito pequeno, mas se você olhar há dez anos atrás, praticamente apenas as 4 grandes montadoras desenvolviam produtos aqui. Hoje, outras já estão começando a desenvolver.

Olhar Geek: Seria necessário ir talvez para outro país?

Marcio Sartori: É sempre uma excelente possibilidade estudar fora ou até mesmo conseguir uma oportunidade de trabalho sim, porém no Brasil também temos oportunidades. Eu acho que proporcionalmente é tão difícil quanto lá fora. Apesar de que hoje em dia, por exemplo, não deve ter tanta oportunidade. O mercado deu uma parada. É muito sazonal. O que eu acho importante deixar claro para um aspirante a essa carreira, é que ele entenda que está procurando uma profissão que é extremamente competitiva. Você falou dos contatos. Isso é importante, como em qualquer profissão. Mas ninguém vai entrar lá porque é “amigo de alguém”, não tem isso.

Nelson Lopes: É uma profissão em que você é escolhido a dedo. É uma área muito estratégica da venda do carro. Então você vai pegar o perfil de pessoa e profissional que você quer. É aquele que é extremamente preparado, sabe fazer tudo, desenha no photoshop, é bom de clay, bom de tudo. E você tem que confiar na pessoa. Ao mesmo tempo em que os estúdios estão aumentando, outras montadoras coreanas, chinesas e alemãs estão vindo ao Brasil. O Brasil já está em uma condição de mercado de design tão boa que internamente nós crescemos muito. Nós temos produtos feitos especificamente só para o Brasil e produtos feitos para o exterior também. No Brasil você pode fazer tudo que vai ser feito para a América latina, e algumas coisas para a China e Europa.

Marcio Sartori: Nós tivemos um crescimento absurdo nos últimos dez anos. Agora a tendência é dar uma estabilizada, mas cresceu muito se você imaginar o que tinha na época em que nós fizemos estágio. Isso é reflexo também das peculiaridades do mercado brasileiro. Existem produtos criados aqui só para o Brasil. Carros como os mini utilitários, por exemplo, criados para o Brasil e tem até alguns países que importam esses carros.

Olhar Geek: Esse crescimento é uma tendência natural ou tem a ver com o momento que o Brasil está vivendo, por causa da Copa do Mundo e Olimpíada?

Marcio Sartori: Não. Isso não tem nada a ver.

Nelson Lopes: Acho que é muito independente. É natural que haja esse crescimento, uma vez que nós não temos uma indústria brasileira de automóveis, todas elas são estrangeiras. O país é economicamente visto como uma área estável para você ter uma produção. Vamos dizer assim, hoje nós somos o quarto maior mercado. Nós criamos mecanismos de manutenção do consumo através de financiamento e crédito. De uma forma geral a pessoa que nunca sonhou em ter um carro, agora consegue financiar um. Isso não é tão fácil no exterior. O brasileiro é muito ávido por novidades e gosta de consumir. Isso ajudou as montadoras a venderem mais internamente e abrir os olhos no mercado europeu e americano para se investir mais aqui. Houve época em que algumas montadoras estavam falidas lá na Europa mas estavam vendendo muito bem por aqui. Isso gerou investimentos internamente por aqui. Então como o Marcio falou. Tivemos uma bolha positiva, todo um potencial ali esperando acontecer, e tivemos uma estabilidade na economia que junto com essas facilidades de crédito, fez o consumo crescer. Claro que agora existem mais concorrentes, é uma situação que faz as empresas irem com mais cuidado com seus investimentos. Mas eu não vejo isso diminuindo de forma nenhuma. Vai continuar crescendo com certeza.

Olhar Geek: Vamos falar um pouco mais dos cursos que são oferecidos aqui. Quais são os mais procurados e quais vocês indicam?

Márcio Sartori: Nós temos basicamente três perfis. São três caminhos profissionais que o aluno pode seguir. Ele pode ser um Designer ou shape designer, o profissional que propriamente desenha o carro. Nós temos o modelador digital, que é o profissional que desenvolve as superfícies matemáticas no computador, trabalhando com alisamento de superfície feito no software “Alias” e o modelador de clay que é o desenvolvimento de superfícies em argila sintética. Sendo assim, o aluno que vai fazer o design, foca no desenho manual que é o mais importante. O caminho que nós indicamos é o Sketch e o Rendering manual. Para quem não sabe o que é rendering, é a parte de ilustração do desenho que retrata os materiais, as formas, o shape do carro através de reflexos e brilhos. Temos a renderização manual feita com marcadores, papel, lápis de cor e nós temos a renderização digital que é feita no Photoshop. Depois desses cursos indicamos sempre para todos o de Gestalt. Para o pessoal que vai fazer o clay, nós procuramos orientar que ele tenha uma base de design, que ele venha fazer o sketch e também o de Gestalt. Assim ele vai ser um profissional mais completo, que entende a linguagem do design, vai se comunicar melhor com o designer e em consequência vai ser um melhor modelador. Ele tem que conseguir interpretar de uma maneira mais precisa no clay o que o designer está passando para ele através dos sketches.

Nelson Lopes: Foi justamente no clay que nós tivemos maior a variedade de perfis. Modelador profissional que veio aqui se aperfeiçoar. Modelador digital que veio aqui para entender melhor a dinâmica do design porque ele vai modelar a partir de uma nuvem de pontos, que é obtida escaneando-se em 3D do modelo de clay. Mas ele precisa entender que o modelo feito à mão não é matematicamente perfeito. O profissional que está acostumado com as linhas de 3D raciocina de outra forma. Então ele tem que pensar da forma que um modelo de clay é feito e assim entender o que é importante e o que não é. Nós temos os estudantes que realmente querem fazer a maquete, o pessoal que quer “fazer um carro”, mas se ele não passou por Gestalt não vai entender a essência daquilo. Então, justamente por ter essa mistura muito grande de perfis, nós temos uma sequência correta. Começar pelo sketch que é o mais básico de tudo. Se você não souber desenhar, você não vai entrar em um departamento de design e ponto. E não é só montadora que está exigindo isso hoje não. O processo seletivo para designer da Electrolux, por exemplo, também compreende verificar a habilidade manual do sketch dos candidatos. Nós temos ex-alunos que estão lá até hoje e entraram lá por conta do sketch. A sequência que indicamos é: sketch, Gestalt, rendering manual ou digital, modelação 3D com “Alias” e modelação em clay. Nem todos os alunos seguem essa sequência. O importante é que realmente ele faça o sketch primeiro e não faça o Gestalt antes de tudo. O pré-requisito do Gestalt é o sketch, porque nós temos toda a parte de geometria e de aperfeiçoamento de sketch que se não tiver a base, ele não vai conseguir pegar direito. Mas fora isso nós temos alunos que fazem a coisa um pouco fora de ordem, porém encaixam tudo muito bem.

Marcio Sartori: Tem alunos que chegam dizendo assim: “Eu já fiz Gestalt na faculdade”. Aí o cara chega na nossa aula e fica até assustado (risos).

Nelson Lopes: O nosso curso de photoshop era só rendering digital automotivo. Nós tivemos que desmembrar em dois. No início tomamos o cuidado de só oferecer o curso pra quem realmente já mexia no software. O cara dizia: “Ah já, aprendi na faculdade”. Chegava lá, o professor começava: “Vamos fazer um layer aqui, não sei o que ali”. O cara não sabia nem o que era layer. Perguntávamos: “Mas o que você aprendeu na faculdade?”.

Nelson Lopes: Aí o Marcio teve a ideia de fazer um curso de rendering digital de produto que até uma dona de casa pode fazer. Nós dizemos dona de casa, porque imagina a pessoa que não se dedicou a nenhuma carreira. Acho até que tem algumas donas de casa que sabem usar melhor o photoshop do que muitos de faculdade (risos). Então a ideia é que, nesse curso de rendering digital de produto, uma pessoa que não conheça o software possa começar. Explicamos que software é esse, as funções, ensinamos tudo desde o início, e só depois partimos para o rendering digital automotivo, que é uma coisa muito focada para o universo do design automotivo.

Olhar Geek: Para finalizar a entrevista vocês gostariam de completar algo?

Nelson Lopes: Acho que além disso tudo, é importante reforçarmos a mensagem de que tudo é possível. Nos nossos cursos, nós temos o compromisso de ajudar a pessoa a cumprir os objetivos pessoais dela, tanto que é uma aula quase que particular. Existem muitos que às vezes tem um certo bloqueio assim de achar que não desenham nada ou que não estão prontos. Nós queremos também essas pessoas que não acreditam que é possível. Quando a pessoa começa aqui, ela faz um desenho do jeito que sabe. No final de quatro aulas ela não acredita no último desenho que ela fez. Em uma turma, nós sempre temos uns dois que encontram mais dificuldade e nós precisamos dar mais atenção. Tem outros que já chegam desenhando bem e para esses nós vamos fazer um trabalho de tirar os vícios e de lapidar. Então esse pessoal que tem menos prática é onde você vê a maior evolução. Começam fazendo uma caixa de fósforos e terminam com uma linguagem mais profissional. Isso é devido ao nosso método e dedicação. É uma didática na qual nós sabemos exatamente com quem estamos trabalhando. De forma alguma damos aula de botar na parede: “Ó se pegar pegou” igual cursinho pré-vestibular. Aqui não. O aluno se dispôs de um tempo, e dinheiro ali, então nós sabemos do compromisso que temos com aquela pessoa. Temos que fazer a pessoa evoluir. Metade dessa responsabilidade também é dela. Se ela não pratica, se não faz do jeito que orientamos, ela vai encontrar dificuldade. É uma didática que funciona desde 2005 e nós temos muitos resultados nas montadoras inclusive. Os alunos que entraram tiveram todo o mérito, mas basta ver nos depoimentos em nosso site, a gratidão que eles demonstram com os cursos da ÍCON Design.

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