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Nelson Lopes e Marcio Sartori são Designers e diretores do estúdio ÍCON DESIGN. Na entrevista que o Olhar Geek realizou com esses dois profissionais, você vai ficar sabendo tudo o que um aspirante a carreira de designer automotivo precisa fazer para ser bem sucedido. A entrevista foi dividida em 3 partes.

Entrevista ÍCON DESIGN - PARTE 1

Entrevista ÍCON DESIGN - PARTE 3

PARTE 2

Olhar Geek: O que o cara que quiser seguir com essa carreira precisa fazer para ser bem sucedido? Além de aproveitar o material oferecido pela ÍCON DESIGN, o que ele pode fazer em casa?

Márcio Sartori: Aqui nós ensinamos, especialmente no curso de sketch, a forma correta de se treinar. Qual o processo que ele tem que utilizar para destrinchar o automóvel, o que é importante analisar no carro para ele começar a desenvolver esse senso analítico. Ele precisa prosseguir com o treinamento. Um diferencial da ÍCON é oferecermos um acompanhamento pós-curso sem custo adicional enquanto o aluno necessitar. É necessário que ele continue treinando muito e usufrua disso. Poucos alunos fazem isso. Tem muito a ver com o comprometimento que a pessoa tem de querer ser bem sucedido. Tem alunos que chegam a um tal nível de dedicação e aprimoramento em que nós já oferecemos bolsa e eles vem aqui treinar. É necessário que o aluno treine muito em casa. Treinando ele aprende com ele mesmo, quais são os pontos fracos. Nós ensinamos o aluno a começar a identificar os próprios erros e como corrigi-los.

Nelson Lopes: Tem muitos também que vem aqui às vezes por hobby. Tem casos de profissionais de outras áreas, que não querem entrar no mercado, mas querem desenhar ou modificar carros. Eles vêm pra cá para aprender esse tipo de técnica e nós procuramos identificar o perfil de cada aluno, até porque nós temos vagas muito limitadas com dois professores para cada cinco alunos.

Márcio Sartori: Às vezes nas aulas digitais nós temos um professor para cada três alunos.

Nelson Lopes: Um pouco antes da aula começar, nós perguntamos o que cada um faz e o que cada um quer. Então nós identificamos: “Esse pessoal aqui quer realmente entrar na montadora. Para eles vai ser mais puxado". "Para esse outro pessoal o foco deles é outro. Então cuidamos de outros aspectos". Nós geralmente temos aulas aos sábados. Entre um sábado e outro, o aluno que traz os sketches feitos em casa, tem as correções no início da aula seguinte com as orientações de onde ele precisa melhorar. No caso do aluno que não traz nada, não ha como você comparar a evolução com um aluno que treina entre as aulas.

Olhar Geek: Vocês passam tarefas pra fazer em casa?

Nelson Lopes: Não, mas nós pedimos que eles desenhem. Eles têm o conteúdo da aula que foi dada e podem treinar este conteúdo.

Olhar Geek: Existem partes específicas de um automóvel em que é possível verificar a criatividade ou inventividade de um designer?

Nelson Lopes: Olha, o automóvel é um conjunto de coisas como todo trabalho de design. Ele tem um propósito técnico que está atrelado a questões de ergonomia de produção e de uma série de itens técnicos. Você tem que vestir e conceituar essa coisa técnica de uma forma que seja atraente, agradável e próprio para o ser humano e o mercado. É todo um conjunto. Não existe uma coisa assim: “A criatividade do carro está nessa peça ou nessa parte”. Não. É tudo uma coisa só. É mais fácil identificar onde o designer errou do que onde ele acertou.

Marcio Sartori: Nós comentamos: “Esse carro não ficou bacana, mas olha essa lanterna”. Esse pessoal de tuning, esse mundo que é mais restrito, eles podem ver dessa forma, mas nós não.

Nelson Lopes: É como se você tivesse em um touro o chifre de um alce. Sabe, você olha assim: “O chifre do alce é bonito”, mas não tem nada a ver com aquele bicho, ele não tem um propósito de uso. As pessoas chegam nesse ponto de analisar a criatividade como algo ornamental. Cada linha que você põe no carro tem uma mensagem subliminar. Ela tem uma forma e uma função. Ela é relativa uma questão técnica. E toda parte da estética e do elemento estético é trabalhado como elemento funcional também, só que ele funciona no seu campo psicológico, no campo da identidade institucional e no campo da percepção de valor. Essa questão da criatividade não é uma coisa aleatória. Por exemplo, se eu quiser fazer um Celta novo: “Ah, vou fazer uma linha pra cá e outra pra lá”. Não. Ele precisa parecer um produto da GM. Um produto que pareça um compacto popular. Você tem uma gama de pessoas para a qual precisa comunicar uma imagem, valores, e é muito diferente de você fazer uma Ferrari. Quantas pessoas no mundo tem uma Ferrari? 1%? Em uma Ferrari ou um Alfa Romeo você pode ousar mais. Mas quando você faz carro de massa, você tem que fazer uma coisa que agrade o maior número de pessoas e esteja dentro de tantas restrições técnicas de segurança. A criatividade é muito maior em fazer um carro com muitas restrições do que para fazer um Porsche ou uma Ferrari.

Olhar Geek: Imaginando que não existissem essas restrições das marcas. É possível classificar o design de um carro em “bonito” ou “feio”? Ou é questão de opinião?

Marcio Sartori: Unanimidade não existe. Mas isso aí também gira em torno daquilo que nós estávamos falando. Isso cabe em categorias de automóvel. Por exemplo, nos carros populares, você tem que buscar algo um pouco mais neutro. Tem que ser algo que vá agradar muitos. Nem sempre é o carro dos sonhos do cara. Mas é um carro que vai agradar uma massa considerável dentro aquela faixa de valor. O Nelson desenvolveu um curso aqui que nós consideramos o curso mais importante da ÍCON. É o curso de Gestalt automotivo. Ele fala sobre essa questão da psicologia e a percepção da forma. Como as pessoas interpretam determinadas proporções, linhas, etc. Também existe a questão cultural de cada país, cada região.

Nelson Lopes: Quando você pergunta: “Dá pra dizer se um carro é bonito ou feio?”. Sim. Mas o critério não é gosto. Justamente nesse curso de Gestalt nós aprendemos que o designer não trabalha com gosto. Você não faz o que você gosta. Você gosta do que faz. Os parâmetros estéticos que definem se uma coisa é feia ou não, são muito baseadas em dados científicos, em estudos psicológicos, em estudos do comportamento. Vamos dizer assim, você tem leis básicas, que são proporção, alinhamento, simetria. Você tem uma série de elementos da estética que são coisas muito clássicas que atuam na bagagem memorial das pessoas, desde a pré-história e que servem de parâmetro para você determinar o que está esteticamente agradável ou não. Com isso você consegue discernir. Quando caímos no âmbito profissional não podemos ir pelo gosto. Quando um cliente pede um projeto para nós, temos que entender a realidade da marca e projetar algo de acordo com essa realidade. Imagina que um dia você aprendeu inglês e começou a escutar de novo as músicas que você escutava muitos anos atrás. Por causa desse conhecimento de você saber a letra, o que o cantor está cantando, você vai passar a gostar de músicas que você não gostava e escutando outras que gostava vai dizer: “Pô, mas eu gostava disso?”. Quando você começa a entender de música, de teoria musical, é a mesma coisa. Você vai começar a entender sobre coisas que não dava valor. “Isso aqui nunca me agradou, mas percebo que dentro da filosofia da música e de todo esse estudo, é uma coisa fantástica e inovadora". Em design, existem vários casos de produtos que não fizeram sucesso, justamente porque estavam muito a frente do seu tempo. Do ponto de vista do design eram fantásticos, mas o público não estava preparado para aceitar aquilo.

Olhar Geek: Se você pegar carros de 40 anos atrás, você percebe a diferença. Mas de 10 anos atrás, são pequenas as diferenças. As mudanças ocorrem aos poucos.

Marcio Sartori: Por isso que existem os clássicos. Quando o produto é bem desenhado, sob essa ótica profissional, é bonito até hoje. Tem casos em que você até algum tempo atrás dizia: “Uau”, mas alguns anos depois, ninguém mais aguenta olhar.

Nelson Lopes: Por exemplo, o primeiro Ford Focus mexeu com a opinião das pessoas. “Olha que coisa inovadora, não tem lanterna na traseira, a lanterna é a coluna é C!”. Depois de alguns anos você olhava e já estava antigo.

Marcio Sartori: Ficou datado. Era daquela época e acabou.

Nelson Lopes: O mesmo não acontece com um carro de entrada, como um Palio ou um Gol. Ele tem mais ou menos a mesma linha durante anos, mas tem certo nível de elegância que dura. São carros que não te emocionam tanto, mas são carros que 20 anos depois ainda estão elegantes.

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