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Carreira de um designer automotivo (Parte 1)

Nelson Lopes e Marcio Sartori são Designers e diretores do estúdio ÍCON DESIGN. Na entrevista que o Olhar Geek realizou com esses dois profissionais, você vai ficar sabendo tudo o que um aspirante a carreira de designer automotivo precisa fazer para ser bem sucedido. A entrevista foi dividida em 3 partes.

Entrevista ÍCON DESIGN - PARTE 2

Entrevista ÍCON DESIGN - PARTE 3

PARTE 1

Olhar Geek: Gostaria que vocês se apresentassem.

Apresentação Nelson Lopes

Nelson Lopes: Um breve histórico da ÍCON. Sou designer de produto, trabalhei na Volkswagen cinco anos, sendo um ano de estágio em São Bernardo do Campo e mais quatro anos na Alemanha. Quando eu voltei para o Brasil, eu tive a idéia de popularizar esse know-how específico das habilidades do designer. Há alguns cursos na Europa e nos EUA, mas aqui no Brasil você não tem isso difundido. E esse know-how você aprende na montadora e desenvolve dentro dela. Não tem como difundir. Então eu criei esses cursos para dar uma primeira formação às pessoas que querem entrar no mercado e não sabem por onde começar. Como é uma área que exige muito de habilidade manual e muito de conhecimento de design de um modo geral, as pessoas não estão aptas a estarem aptas. Quando você sai da faculdade você não está apto a ir no dia seguinte à montadora. Eu vi isso no estágio o quão o meu desenho estava aquém do que precisava.

Olhar Geek: Você saiu da faculdade sabendo disso?

Nelson Lopes: Não. Você acha que se cursou cinco anos de uma boa faculdade, você está minimamente preparado, mas quando você põe os pés numa montadora, você vê que os critérios são muito apertados. O carro é um produto que envolve todos os processos de fabricação que você puder imaginar. Todos os materiais que puder imaginar: vidro, aço, borracha, cerâmica, tudo é aplicado no carro. É um produto muito caro, que as pessoas trocam todos os anos e que ainda tem vidas humanas em jogo ali. É uma indústria que tem tolerâncias muito curtas e a competição é muito forte. Existem mais de 10 montadoras no país brigando por uma fatia maior do bolo e a exigência do trabalho de design é muito alta. Principalmente na parte de identidade, pois a montadora vive de identidade. Ela sabe que precisa inovar o suficiente para captar novos clientes e novos grupos de consumidores e se manter atual, mas sabe também que se inovar demais ou fizer algo muito fora da filosofia dela, da identidade de design dela, o público já não reconhece aquilo como produto que está acostumado a comprar e isso pode representar baixas nas vendas. Hoje em dia, não só a indústria automotiva, mas a indústria de um modo geral, está percebendo que a identidade é o que realmente fideliza os clientes e portanto sustenta os lucros, aquele lucro assíduo, fixo. Se a BMW começar a desenhar uma linha muito tradicional demais, querendo fazer uma coisa mais clássica, não vai vender. Existe um caso que exemplifica isso, que aconteceu com os Porsche entre 1997 e 2006, que traziam um desenho de farol meio "derretido".

Aquele novo desenho de farol gerou uma reação no público, de começarem a valorizar mais os modelos anteriores que tinham o farol redondo. Depois disso, pararam de fazer um farol muito complexo e voltaram ao clássico porque o público não reconhecia aquele farol diferente como identidade Porsche.

Aqui na ÍCON procuramos dar esse básico mínimo, esse know-how que você só aprende na montadora e nos orienta em todas as áreas possíveis, desde as habilidades manuais, com o sketch automotivo até modelação em clay e toda a parte digital, com ilustração no photoshop e modelação 3D.

Apresentação de Márcio Sartori

Márcio Sartori: Eu me formei em desenho industrial em 2002 e antes disso, na minha cabeça eu queria trabalhar com design automotivo. Eu queria desenhar o carro, trabalhar nessa parte que nós chamamos de shape design, mas eu não sabia que quem fazia isso era o designer.

Olhar Geek: Desde pequeno que você se interessou?

Márcio Sartori: Não. Sempre gostei de desenhar, mas não objetivamente para ser designer de automóvel. Eu comecei aos 18 anos. Aí eu ainda fui fazer engenharia. Fiz um ano e meio de engenharia por equívoco total, achava que era o engenheiro quem desenhava o carro. Aí com o tempo fui entendendo que não tinha nada a ver. Então fui fazer Desenho Industrial. Depois, através da Volkswagen que promove um concurso de design todos os anos, que é o processo seletivo para você entrar como estagiário, eu fui um dos vencedores do concurso e fiz estágio lá durante um ano. Depois eu trabalhei na Fiat por um período curto e em seguida fui contratado pela Ford. Fiquei três anos na Ford como designer, voltei para Volkswagene fiquei mais três anos. Depois me desliguei para me tornar sócio do Nelson. Foi o Nelson que começou esse projeto educacional lá no Rio. Quando eu vim para São Paulo eu comecei a visualizar uma demanda muito grande por esse tipo de conhecimento. Aqui essa cultura automotiva é bem mais forte do que no Rio de Janeiro. Eu senti essa demanda e que haviam muitos que nunca tiveram essa experiência que nós tivemos. Pessoas que acham que sabem o que é design automotivo, mas infelizmente não possuem a orientação correta. Aqui nós não passamos só a técnica mas também a orientação profissional, naquilo que a pessoa precisa focar, onde precisa se desenvolver. Nós procuramos passar essa orientação baseados no que fizemos para entrar. Então eu comecei a implementar aqui apenas os cursos de sketch automotivo. Eu e mais alguns designers da Volks alugamos uma sala lá no Itaim Bibi. Chegamos a ter até 30 alunos em uma sala, sendo duas turmas de 15 alunos por fim de semana. Só tínhamos a parte de sketch que é o desenho manual. Depois o Nelson veio para São Paulo e nós começamos a pensar: “Vamos fazer uma coisa bem maior, com computação gráfica e modelação em clay". Isso foi tomando corpo e se transformando em um estúdio e numa escola que tem todo um fluxograma.

Olhar Geek: Vocês se basearam em outras escolas com propostas similares?

Márcio Sartori: Não. Aqui nos nossos cursos você não precisa seguir necessariamente a ordem que indicamos. São cursos livres, você pode fazer separadamente mas orientamos que o aluno siga um determinado caminho aqui dentro. Não são cursos superiores ou cursos técnicos. São cursos que procuram cobrir todas as habilidades necessárias para ser um designer. Numa faculdade, ele não vai receber o conhecimento especifico que ele adquire aqui. Na época em que começamos, éramos autodidatas, procurando na internet, em revistas e etc. Hoje em dia este setor é muito mais desenvolvido comparado com a época em que iniciamos. O nível subiu muito no Brasil até por causa desse tipo de curso que nós oferecemos.

Olhar Geek: Você diria que o progresso de aluno da ÍCON DESIGN é considerável?

Márcio Sartori: Sem dúvida. Mas isso depende muito do aluno também. Milagre não existe.

Nelson Lopes: Aqui nós temos todos os tipos de alunos. Desde aqueles que entram aqui não muito bons e saem em um nível quase profissional até aqueles que já entram bons e não evoluem tanto. Tem aqueles que entram com um nível fraco e evoluem pouco. Vai de cada um.

Márcio Sartori: Tem pessoas que vem aqui, não evoluem nada e você nunca mais ouve falar do cara. Três meses depois ele volta com um trabalho excelente e fala: “Peguei tudo o que aprendi no curso e desenvolvi em casa”. Isso é muito pessoal. Alguns alunos tem desenvolvimento rápido e outros mais lentos. Tem todo tipo de caso de aluno. É interessante falar também, nós temos pessoas que estão profissionalmente estabelecidas e estabilizadas, que querem mudar totalmente de área e tem sucesso conseguindo trabalhar com design automotivo. Por outro lado, também tem outros que possuem um talento absurdo, são jovens e às vezes não conseguem. É curioso ver isso. É um pouco de sorte e um pouco de habilidade que a pessoa tem de se vender como profissional.

Olhar Geek: Nelson, seu interesse pela área começou quando você já era pequeno?

Nelson Lopes: Sim, desde pequeno. Minha mãe diz que a primeira palavra que falei foi carro. Sempre gostei de carro desde guri. Entrei na faculdade para ser designer de automóvel. Um amigo me deu uma Quatro Rodas bem antiga que falava da função de designer. Nem achava que isso existia no Brasil e fiquei com aquela coisa na cabeça: “Tenho de estudar desenho industrial”. Quando cheguei à faculdade me desiludi completamente. Na época, em 1992, nem se falava direito em design no Brasil, quanto mais em design automotivo. O clima que pairava nas universidades era que se você fosse designer de qualquer coisa já seria bom, porque tinha muitos que se formavam e acabavam trabalhando em caixa de banco, escritório de advocacia, de administração... nada a ver com a área. Então, se não me engano em 1998, a Volkswagen fez o primeiro concurso de design para escolher três estagiários. Eu nem queria participar desse concurso. Já estava desiludido com a coisa mas um amigo meu insistiu e acabei participando. Acabou que eu passei e ele não. Infelizmente foi uma coisa muito irônica. De todos os finalistas ele tinha o melhor conceito, o melhor carro. De alguma forma gostaram daquilo que eu apresentei e aí entrei para a área. Existe uma publicação de design, a mais importante, que é a Auto Design, onde só se fala de design automotivo. Na época você não conseguia exemplares no Brasil tão fácil. Tinha apenas em uma banca de jornal no centro do Rio e custava algo, como se fossem hoje R$250,00 , devido à economia da época. Era bem complicado, não tinha curso e nem nada na internet, que estava começando a engatinhar nesse sentido.